Brasileiros que fizeram carreira no Canadá começam a olhar para os Estados Unidos como próximo passo migratório
Mercado de trabalho, expansão dos negócios e futuro dos filhos estão entre as motivações; cidadania canadense pode abrir possibilidades migratórias específicas, explica advogado.

Da redação
Durante anos, o Canadá esteve entre os principais destinos escolhidos por brasileiros interessados em construir uma carreira internacional. Agora, parte desses profissionais começa a avaliar um novo movimento: depois de estabelecer vida, carreira e, em alguns casos, conquistar a cidadania canadense, os Estados Unidos passam a aparecer como uma possível segunda etapa dessa trajetória.
O movimento envolve fatores que vão além da imigração. Mercado de trabalho, expansão de negócios, custo de moradia, educação dos filhos, clima e facilidade de deslocamento para o Brasil estão entre as razões consideradas por famílias que começam a estudar uma mudança para os Estados Unidos.
É o caso da brasileira Tati Rainer, que vive no Canadá há quase 15 anos, onde construiu uma sólida carreira executiva antes de fundar sua empresa de posicionamento profissional e hoje iniciou, junto ao Murtaz Law, a avaliação de seu projeto migratório para os Estados Unidos.
Quando deixou o Brasil, os EUA sequer estavam entre suas primeiras opções.
"Quando eu decidi sair do Brasil, os Estados Unidos não eram uma opção para mim. Eu tinha aquela percepção de que seria muito mais difícil imigrar para lá. Vim para Vancouver em 2009 para estudar inglês, me apaixonei pela cidade e, quando voltei definitivamente em outubro de 2011, consegui uma oportunidade profissional no Canadá. Naquele momento, parecia o caminho mais natural", conta Tati.
Com o passar dos anos, entretanto, sua realidade profissional e familiar mudou.
Hoje, além de ser mãe de dois filhos, Tati atua como estrategista de posicionamento de carreira e LinkedIn Expert. Ela ajuda profissionais experientes e executivos a fortalecer seu posicionamento, currículo, presença no LinkedIn e performance em entrevistas, especialmente no mercado norte-americano. Segundo ela, aproximadamente 90% de seus clientes estão nos Estados Unidos.
"Quando comecei a direcionar meu negócio para o mercado americano, percebi uma mudança muito grande. Existe uma abertura maior para serviços de coaching, há um mercado muito maior e também mais oportunidades de relacionamento profissional e participação em eventos. Estar fisicamente nos Estados Unidos pode representar uma expansão importante para o meu negócio", afirma.
A decisão também passa pelo planejamento familiar.
"Hoje pensamos principalmente no futuro dos nossos filhos. Queremos ampliar as possibilidades de educação, carreira e experiências que eles poderão ter. Também pesa muito a proximidade com o Brasil. Depois de tantos anos vivendo fora, a facilidade de ter voos mais diretos e reduzir o tempo de deslocamento faz diferença para uma família com crianças", explica.
Para Murtaz Navsariwala, advogado americano de imigração e fundador da Murtaz Law, casos como o de Tati refletem uma mudança na maneira como profissionais internacionais passaram a enxergar sua trajetória migratória.
"Imigração não precisa ser encarada necessariamente como uma decisão definitiva entre Canadá ou Estados Unidos. Para profissionais que já construíram carreira internacional, o mais importante é entender quais opções existem e em que momento elas podem fazer sentido dentro dos objetivos profissionais e familiares daquela pessoa", afirma.
Segundo o advogado, possuir cidadania canadense pode trazer vantagens específicas em determinadas situações, mas não significa acesso automático à residência permanente nos Estados Unidos.
Um dos exemplos é o status TN, disponível para determinados profissionais cidadãos do Canadá e do México que exercem ocupações previstas no acordo comercial entre Estados Unidos, México e Canadá, o USMCA. A categoria permite trabalho temporário nos Estados Unidos quando todos os requisitos aplicáveis são atendidos.
"Ter cidadania canadense pode abrir possibilidades que não estariam disponíveis da mesma forma para um profissional apenas com nacionalidade brasileira, como o TN em determinadas ocupações. Mas isso não significa que exista um caminho automático para o green card. São análises diferentes e cada categoria possui requisitos próprios", explica Navsariwala.
Além da nacionalidade, a trajetória construída no Canadá também pode ser relevante.
Promoções, posições de liderança, crescimento empresarial, publicações, pesquisas, palestras, participação em projetos relevantes, prêmios e reconhecimento dentro do setor podem, dependendo das circunstâncias, integrar a documentação considerada em categorias migratórias baseadas em qualificação profissional, como EB-1A, EB-2 NIW e O-1A.
"O profissional não começa do zero quando decide avaliar os Estados Unidos. Toda a carreira construída anteriormente pode ser importante. O que fazemos é analisar essa trajetória, os objetivos da pessoa e as categorias previstas na legislação para entender se existe uma estratégia possível e qual seria a mais adequada para aquele caso", afirma o advogado.
Para Tati, conhecer essas possibilidades mudou uma percepção que carregava desde que saiu do Brasil.
"Durante muito tempo eu achava que imigrar para os Estados Unidos era algo extremamente distante. Hoje vejo que parte disso também era falta de informação. Talvez, se eu conhecesse essas possibilidades anos atrás, tivesse considerado esse caminho antes", diz.
Segundo ela, o Canadá continua representando uma etapa fundamental de sua história, mas já não precisa necessariamente ser o destino final.
"Eu construí minha vida no Canadá e sou muito grata por tudo o que vivi aqui. Mas também acredito que precisamos aproveitar as oportunidades conforme a nossa vida muda. Hoje, para nossa família, os Estados Unidos representam a possibilidade de expandir o negócio, oferecer mais opções para nossos filhos e ficar mais conectados ao Brasil", afirma.
Navsariwala ressalta que o crescimento do interesse de brasileiros estabelecidos no Canadá também exige cautela para evitar a ideia de que uma experiência migratória bem-sucedida em um país automaticamente garante aprovação em outro.
"Uma carreira sólida no Canadá e a cidadania canadense podem ser elementos importantes, mas nenhum deles substitui os requisitos da legislação americana. Não existe uma solução única para todos. É necessário analisar formação acadêmica, profissão, experiência, histórico profissional, objetivos familiares, situação migratória e a categoria pretendida antes de definir qualquer estratégia", afirma.
Tati já iniciou essa etapa de avaliação e preparação com a Murtaz Law. Para ela, o novo projeto representa uma continuação, e não uma ruptura, da trajetória iniciada quando deixou o Brasil.
"Quando saí do Brasil, estava buscando oportunidades que naquele momento faziam sentido para mim. Agora nossa família está em outra fase. O Canadá fez parte dessa construção, e os Estados Unidos podem ser o próximo passo", conclui.




