Uma raiz simples com efeitos sobre o coraçãoA cenoura também passou a ser estudada pela possível relação com a saúde cardiovascular. Em uma pesquisa realizada nos Países Baixos, com acompanhamento de aproximadamente dez anos, cada aumento de 25 gramas diárias no consumo de cenoura esteve associado a um risco 32% menor de doença coronariana. O resultado pode estar ligado à combinação de fibras, carotenoides e compostos antioxidantes presentes no alimento. As fibras participam do metabolismo das gorduras e dos ácidos biliares. Os carotenoides, por sua vez, ajudam a proteger as células contra danos provocados pelo estresse oxidativo, processo envolvido no envelhecimento dos vasos sanguíneos e na progressão de doenças cardiovasculares. Um estudo clássico no qual os participantes consumiram 200 gramas de cenoura crua diariamente durante três semanas encontrou uma redução de 11% no colesterol total. Também houve aumento de 50% na eliminação de ácidos biliares e gorduras pelas fezes, indicando uma possível mudança na forma como o organismo absorvia e eliminava lipídios. Pesquisas posteriores também observaram que o consumo de cenoura pode modificar a absorção do colesterol e favorecer a excreção de ácidos biliares, mecanismos que ajudam a explicar seu possível papel dentro de uma alimentação cardioprotetora. Isso não significa que a cenoura funcione como medicamento para colesterol alto. Seu valor está em participar de um padrão alimentar que protege o coração: mais vegetais, fibras e alimentos naturais; menos ultraprocessados, gorduras de baixa qualidade e excesso de açúcar. Crua ou cozida? A resposta surpreendeQuem acredita que todo vegetal é sempre mais nutritivo quando consumido cru pode se surpreender com a cenoura. O falcarinol e outros poliacetilenos são sensíveis ao calor. Por isso, a cenoura crua tende a preservar melhor parte dessas substâncias. Uma revisão sobre consumo de cenoura e câncer observou que justamente a versão crua apareceu com maior frequência nas associações favoráveis identificadas em estudos populacionais. Por outro lado, o cozimento pode melhorar significativamente o aproveitamento do betacaroteno. Esse pigmento fica preso dentro das paredes celulares rígidas do vegetal. O calor e a trituração rompem parte dessas estruturas, facilitando sua liberação durante a digestão. Em um estudo com voluntários, refeições preparadas com cenoura cozida e transformada em purê permitiram uma absorção significativamente maior de betacaroteno do que as refeições com cenoura crua picada. A presença de uma pequena quantidade de gordura na refeição também favorece o processo, porque o betacaroteno é lipossolúvel. Por isso, combinações como cenoura cozida com azeite, ovos, castanhas ou abacate podem melhorar seu aproveitamento. A conclusão não é que a cenoura cozida seja superior à crua, mas que cada preparo revela uma vantagem diferente do mesmo alimento. Na salada, ela preserva melhor determinados compostos e oferece crocância e fibras. Cozida, assada ou transformada em purê, torna parte dos carotenoides mais acessível ao organismo. "A melhor estratégia é alternar. Não existe motivo para escolher apenas uma forma. Variar o preparo permite aproveitar melhor a complexidade nutricional da cenoura", orienta Dr. Cláudio Mutti. O que ela pode oferecer ao cérebroA cor da cenoura também está ligada à presença de carotenoides, compostos antioxidantes que ajudam a proteger as células contra danos acumulados ao longo do tempo. Além deles, o alimento contém flavonoides, entre os quais a luteolina, substância investigada por sua ação anti-inflamatória e neuroprotetora. Em pesquisas experimentais, a luteolina reduziu a ativação de processos inflamatórios no sistema nervoso e apresentou efeitos positivos em modelos relacionados à memória e ao envelhecimento cerebral. Esses achados abriram uma linha de investigação sobre a relação entre compostos vegetais, inflamação e proteção dos neurônios. Na vida real, porém, a proteção do cérebro não depende de uma molécula isolada. Ela é construída pela soma de atividade física, sono adequado, controle da glicemia e da pressão, estímulo intelectual e uma alimentação rica em vegetais variados. "Coração, intestino e cérebro não funcionam como sistemas separados. Inflamação, circulação, glicose, microbiota e qualidade da alimentação criam conexões entre todos eles", explica o especialista. Quanto é preciso consumir?Não existe uma dose terapêutica de cenoura. Os estudos populacionais encontraram resultados interessantes com quantidades perfeitamente compatíveis com uma alimentação comum: algumas porções distribuídas ao longo da semana, consumidas dentro de uma rotina variada. Ela pode aparecer ralada na salada, cortada em palitos, refogada com outros vegetais, assada, incluída em sopas ou transformada em purê. O importante é evitar a ideia de que grandes quantidades produzirão benefícios proporcionais. O médico Claudio Mutti conclui: "O que produz efeito é a repetição de bons hábitos, variedade de vegetais, proteínas adequadas, fibras, atividade física, sono e acompanhamento médico quando necessário". |